Café com bolo

A cozinha da Vó Cema

Helerson de Almeida Balderramas

Era pequena e singela, com uma mesa encostada na janela, mas era ali que tudo acontecia. O café, sempre passado na hora, de codinome "fresquinho", e as muitas xícaras ao redor da térmica eram um convite irrefutável. Sempre havia por ali alguma quitanda tipicamente mineira: bolo de fubá, de laranja ou de chocolate, bolachinhas de polvilho ou de nata.

O macio pão caseiro, recheado de conversas, risadas e pausas cúmplices, misturava-se aos aromas acolhedores da cozinha, onde o tempo parecia desacelerar e o afeto se servia em pequenas porções com o queijo meia cura.

A Vó Cema com um olhar meigo estava sempre atenta à mesa e ao fogão. Enquanto a prosa corria solta, ela cuidava do que seria servido no jantar ou adiantava, com um zelo cerimonial, o almoço de domingo. Cada gesto seu era precisão aprendida com o tempo, um toque de intuição passada de geração em geração, como se acerta com simplicidade o ponto do doce de leite.

E quando parecia que tudo já havia sido oferecido, ela ia até o armário de mantimentos. Dali, com mãos ligeiras, tirava da cartola uma nova surpresa: um doce feito dias antes, um biscoito especial, uma compota de fruta reservada para “quando tivesse visita”. Porque, na casa da avó, todo dia era dia de visita e ninguém saía de lá sem um pedaço de conselho embrulhado gentilmente em sabor.

Na mesa da casa da avó, os assuntos eram tão variados quanto os quitutes. Além das lembranças do Guaricanga, falava-se de tudo um pouco: da política à vizinhança, da saúde pessoal às mudanças climáticas. E, entre uma xícara e outra, textos bíblicos indicados no devocional diário eram lidos, comentados, partilhados e servidos com júbilo e oração. Cada conversa era como o fio do crochê da toalha sobre a mesa: entrelaçado entre o sagrado e o pueril.

“Vamos fazer pamonhas!” sugeria Iracema, que logo ia organizando o "rolê".

Os tios se reuniam no quintal, descascando espigas de milho verde; a mãe e a tia ralavam os grãos com as pontas delicadas dos dedos no ralador de latão improvisado. A avó, com o modo de preparo guardado na memória, colocava o leite no fogo e adicionava à fervura o néctar dourado. E, em instantes, enquanto a pamonha "apurava", o curau quentinho estava pronto; doce recompensa aos netos que corriam pela casa.

Na cozinha da Vó Cema nunca faltavam três especiarias importantes: fé, esperança e amor. Seu caderno de receitas, com a caligrafia caprichada e a capa envelhecida de lembranças, revelava ainda um diário silencioso. Não trazia apenas medidas e modos de preparo, mas recordações de encontros familiares, datas memoráveis e recados de acalanto nas entrelinhas. Cada prato era guarnecido de um legado, tecendo gerações pela palavra escrita e sabores preservados.

Quando o aroma de café coado invade a casa ou o gosto da goiabada cremosa remete à infância, é como se ela estivesse ali, de avental e alma acesa servindo mais um pouco de amor e eternidade.